10 Junho 2009

A Ideologia da Vitimização

Feral Faun



Em Nova Orleans, próximo ao French Quarter, há um grafite em uma parede que diz: “Homens Estupram.” Eu costumava passar por ele quase todos os dias. Na primeira vez que eu vi, me deixou puto porque eu sabia que quem fez o grafite me definiria como um “homem” e eu nunca desejei estuprar ninguém. Nem nenhum dos meus incriminados amigos. Mas, como eu fui encontrando este dogma em spray todos os dias, as razões para minha raiva mudaram. Eu reconheci este dogma como uma oração para a versão feminista da ideologia da vitimização – uma ideologia que promove medo, fraqueza individual (e conseqüentemente dependência em grupos de suporte baseados em ideologias e em proteções paternalistas de autoridades) e cegueira para todas as realidades e interpretações de experiências que não conformam com a visão de alguém sobre si mesmo como vítima.


Eu não nego que exista alguma realidade atrás da ideologia da vitimização. Nenhuma ideologia poderia funcionar se não tivesse base alguma na realidade. Como Bob Black disse, “Nós somos crianças adultas de nossos pais.” Nós todos passamos nossas vidas inteiras em uma sociedade que está baseada na repressão e na exploração de nossos desejos, nossas paixões, e nossa individualidade, mas certamente é um absurdo abraçar a derrota definindo a nós mesmos nos termos da nossa vitimização.


Como um meio de controle social, instituições sociais reforçam a sensação de vítimas em cada um de nós focando esta sensação em direções que reforçam a dependência em instituições sociais. A mídia nos bombardeia com contos de crime, corrupção política e corporativa, conflitos raciais e de gênero, escassez e guerra. Enquanto estes contos comumente tem uma base na realidade, eles são apresentados de forma a claramente reforçar o medo. Mas muitos de nós descrêem da mídia, e então é servida toda uma gama de ideologias “radicais”—todas contendo um grão de percepção real, mas todas cegas para o que de alguma forma não se encaixe na suas estruturas ideológicas. Cada uma dessas ideologias reforça a ideologia da vitimização e foca a energia dos indivíduos fora do exame da sociedade em sua totalidade e do seu papel em reproduzi-la. Tanto a mídia quanto todas as versões de radicalismo ideológico reforçam a idéia de que nós somos vítimas de algo que está “fora”, dos “Outros”, e que as estruturas sociais – família, polícia, leis, terapia e grupos de suporte, educação, organizações “radicais” e qualquer coisa mais que possa reforçar o senso de dependência – estão lá para nos proteger. Se a sociedade não produzisse estes mecanismos – incluindo as estruturas de falsa, ideológica, e parcial oposição – para proteger a si mesma, nós talvez justamente examinássemos a sociedade em sua totalidade e viéssemos a reconhecer sua dependência nas nossas atividades para se reproduzir. Então, em cada chance que tivéssemos, nós talvez recusássemos nossos papéis como dependentes/vítimas da sociedade. Mas as emoções, atitudes, e modos de pensar evocados pela ideologia da vitimização tornam esta mudança de perspectiva muito difícil.


Ao aceitar a ideologia da vitimização de qualquer forma, nós escolhemos viver no medo. A pessoa que pintou o grafite “Homens Estupram” era muito certamente uma feminista, uma mulher que viu seu ato como uma afronta radical à opressão patriarcal. Mas tais proclamações, de fato, apenas vem acrescentar à um clima de medo que já existe. Ao invés de dar às mulheres uma sensação de força como indivíduos, reforça a idéia de que as mulheres são essencialmente vítimas, e as mulheres que lerem este grafite, mesmo que elas conscientemente rejeitem o dogma atrás dele, provavelmente andarão pelas ruas mais amedrontadas. A ideologia da vitimização que permeia tais discursos feministas pode também ser encontrada em algumas formas de libertação gay, libertação nacional/racial, conflito de classes e em quase toda outra maldita ideologia “radical”. O medo de uma atual, imediata, prontamente identificável ameaça para um indivíduo pode motivar ação inteligente para erradicar a ameaça, mas o medo criado pela ideologia da vitimização é o medo de forças tanto tão grandes quanto tão abstratas para o individuo lidar com elas. Acaba por se criar um clima de medo, suspeita e paranóia que torna as mediações que são a rede de controle social parecerem necessárias e até mesmo boas.


É este aparentemente sobrepujante clima de medo que cria em indivíduos a sensação de fraqueza, a sensação de ser essencialmente uma vítima. Enquanto é verdade que vários ideólogos “liberacionistas” algumas vezes explodem com raiva militante, raramente vai além daquele ponto onde se realmente ameaça alguma coisa. Ao invés, eles “demandam” (leia-se “militantemente imploram”) que aqueles que eles definem como seus opressores lhes dêem sua “libertação”. Um exemplo disto ocorreu no encontro anarquista Without Borders de 1989 em São Francisco. Não há dúvida que na maior parte das oficinas em que fui, homens tenderam a falar mais do que as mulheres. Mas ninguém estava impedindo as mulheres de falarem, e eu não percebi qualquer falta de respeito sendo mostrada pelas mulheres que falavam. Ainda assim, no microfone público do pátio do prédio onde o encontro estava acontecendo, uma fala foi feita que proclamava que “homens” estavam dominando as discussões e impedindo as “mulheres” de falar. O orador “demandou” (novamente, leia-se “militantemente implorou”) que homens garantissem que estavam dando às mulheres espaço para falar. Em outras palavras, que garantissem os “direitos” aos oprimidos – uma atitude em que, por implicação, aceita o papel do homem como opressor e da mulher como vítima. Realmente aconteceram oficinas em que certos indivíduos dominaram as discussões, mas a pessoa que esta agindo com a força de sua individualidade vai lidar com tal situação pelo imediato confronto enquanto ela ocorre e vai lidar com as pessoas envolvidas como indivíduos. A necessidade de colocar tais situações em um contexto ideológico e de tomar os indivíduos envolvidos como papéis sociais, transformando a real e imediata experiência em categorias abstratas é um sinal que alguém escolheu por ser fraco, e que escolheu por ser uma vítima. Abraçar a fraqueza coloca alguém na absurda posição de ter de implorar a seu opressor para lhe dar a libertação – garantindo que nunca será livre para ser qualquer coisa que não uma vítima.


Como em todas as ideologias, as variedades da ideologia da vitimização são formas de falsa consciência. Aceitar o papel social de vítima – em qualquer uma de suas muitas formas – é escolher por nem ao menos criar a própria vida por si mesmo ou explorar as relações reais de alguém com as estruturas sociais. Todos os movimentos de libertação parciais – feminismo, libertação gay, libertação racial, movimentos de trabalhadores e em diante – definem os indivíduos pelos seus papéis sociais. Por causa disso, estes movimentos não só deixam de incluir um reverso de perspectivas que possa quebrar os papéis sociais e permitir aos indivíduos criar uma práxis construída em suas próprias paixões e desejos; eles de fato também trabalham contra tal reversão de perspectiva. A “libertação” de um papel social perante o qual o indivíduo permanece sujeito. A essência dos papéis sociais na rede destas ideologias libertárias é a vitimização. As preces dos males sofridos devem ser cantadas de novo e de novo para garantir que as “vitimas” nunca esqueçam que isso é o que elas são. Estes movimentos de libertação “radicais” ajudam a garantir que o clima de medo nunca desapareça, e que os indivíduos continuem a ver a si próprios fracos e a ver suas forças contando com os papeis sociais que são, de fato, a fonte da própria vitimização. Deste modo, estes movimentos e ideologias atuam para prevenir a possibilidade de potente revolta contra toda autoridade e todos os papéis sociais.


A verdadeira revolta nunca é segura. Aqueles que escolhem definir a si mesmos nos termos de seus papéis como vítimas não ousam tentar a revolta total, porque iria ameaçar a segurança de seus papéis. Mas, como Nietzsche disse: “O segredo do grande desfrutar e da grande alegria na existência é viver perigosamente!” Apenas uma rejeição consciente da ideologia da vitimização, uma recusa em viver no medo e na fraqueza, e a aceitação da força das nossas próprias paixões e desejos, de nós mesmos como indivíduos que são maiores que, e tão capazes de viver além, de todos os papéis sociais, pode prover a base de uma total rebelião contra a sociedade. Tal rebelião é certamente alimentada, em parte, pela raiva, mas não a estridente, magoada, frustrada raiva de vítima que motiva feministas, libertários raciais, libertários gays, e semelhantes a “demandarem” seus “direitos” das autoridades. Ao invés é a raiva de nossos desejos desacorrentados, o retorno do reprimido em sua total força e sem disfarces. Mas, mais essencialmente, a revolta total é alimentada por um espírito de jogo livre e de prazer na aventura – por um desejo de explorar cada possibilidade de vida intensa que a sociedade tenta negar a nós. Para todos de nós que querem viver livres e sem amarras, o tempo passou de quando fosse plausível tolerar viver como ratos envergonhados dentro de muros. Cada forma de ideologia de vitimização nos move a viver como ratos envergonhados. Ao invés, vamos ser monstros loucos e gargalhantes, cheios de prazer desmanchando as paredes da sociedade e criando vidas de maravilhas e deslumbramento para nós próprios.


Primeira publicação em "Anarchy: A Journal Of Desire Armed" Edição #32, Primavera de 1992, e novamente emAnarchy” Edição #55 Primavera/Verão de 2003.
Republicado pela 'Elephant Editions' (Londres) em 2000/2001 na coleção "Feral Revolution".
Reimpresso no panfleto "The Iconoclast's Hammer" por 'Venomous Butterfly Publications.'

11 Dezembro 2007

O EROTISMO OU A DIALÉTICA DO PRAZER (1)

Raoul Vaneigem


Não existe prazer que não esteja em busca da sua coerência. A sua interrupção, a sua não satisfação provoca um distúrbio semelhante à estase de que fala Reich. Os mecanismos opressivos do poder mantém os seres humanos em um estado de crise permanente. O prazer e a angústia nascidos de uma ausência têm portanto essencialmente uma função social. O erotismo é o desenvolvimento das paixões que se tornam unitárias, um jogo sobre unidade e multiplicidade, sem o qual não existe coerência revolucionária (“O tédio é sempre contra-revolucionário” – Internationale Situationniste, nº 3).

Wilhelm Reich atribuiu a maioria dos comportamentos neuróticos aos distúrbios do orgasmo, àquilo que ele chama de “impotência orgástica”. Segundo ele, a angústia surge da incapacidade de ter um orgasmo completo, surge de uma descarga sexual que não consegue liquidar totalmente toda a excitação mobilizada pela atividade sexual preliminar (carícias, jogos eróticos, sedução...). A teoria reichiana considera que a energia acumulada e não gasta se torna flutuante e se transforma em angústia. A angústia por sua vez impede um orgasmo completo futuro.

Ora, o problema das tensões e da sua liquidação não se coloca apenas no plano da sexualidade, ele caracteriza todas as relações humanas. Mesmo que Reich o tenha pressentido, ele não mostrou de modo suficiente que a crise social atual é também uma crise de tipo orgástico. Se “a fonte de energia da neurose se encontra na disparidade entre a acumulação e a descarga de energia sexual”, parece-me que a fonte de energia das nossas neuroses se encontra também na disparidade entre a acumulação e a descarga de energia posta em ação nas relações humanas. O gozo total é ainda possível no momento do amor, mas assim que nos esforçamos em prolongar esse momento, em lhe dar uma extensão social, não se escapa àquilo a que Reich chama de “estase”. O mundo do deficitário e do incompleto é o mundo da crise permamente. Como seria então uma sociedade sem neurose? Seria uma festa permanente, com o prazer como único guia.

“Tudo é feminino naquilo que se ama”, escreveu La Mettrie (2). “ O domínio do amor só reconhece como limites os do prazer”. Mas o próprio prazer em geral não reconhece limites. O prazer que não aumenta desaparece. A repetição o mata, ele não se acomoda com o fragmentário. O princípio do prazer é inseparável da totalidade.

O erotismo é o prazer que procura sua própria coerência. É o movimento das paixões na direção da intercomunicação, da interdependência e da unidade. O problema é recriar na vida social as condições do gozo perfeito no momento do amor. Condições que permitam o jogo com a unidade e a multiplicidade, ou seja, a livre e transparente participação na busca da realização.

Freud define a finalidade de Eros como a unificação ou a busca da união. Mas, quando pretende que o medo de ser separado e expulso do grupo provém da angústia da castração, ele vê de modo invertido. É a angústia da castração que provém do medo de ser excluído, e não o inverso. Essa angústia aumenta à medida que o isolamento dos indivíduos na ilusão comunitária se torna cada vez mais difícil de ignorar.


Embora busque unificação, Eros é essencialmente narcisista, apaixonado por si mesmo. Deseja um universo para amar como ama a si próprio. Norman Brown (3) assinala esta contradição em Eros e Thanatos. Como é que uma orientação narcisista, pergunta ele, poderia conduzir à união com os seres no mundo? Ele responde: “A antinomia abstrata do Ego e do Outro no amor pode ser vencida se regressarmos à realidade concreta do prazer e à definição da sexualidade como essencialmente a atividade prazerosa do corpo, e se considerarmos o amor como a relação entre o ego e as fontes do prazer”. Mas seria ainda necessário acrescentar: a fonte do prazer está menos no corpo que em uma possibilidade de expansão no mundo. A realidade concreta do prazer deve-se à liberdade de unir-se a todos os seres que permitam que a pessoa se una consigo mesma. A realização do prazer passa pelo prazer da realização; o prazer da comunicação, pela comunicação do prazer; a participação no prazer, pelo prazer da participação. É nisso que o narcisismo voltado para o exterior, de que fala Brown, implica uma subversão total das estruturas sociais.


Quanto mais o prazer cresce em intensidade, mais reivindica a totalidade do mundo. É por isso que me agrada saudar como um slogan revolucionário a exortação de Breton: “Amantes, dêem um ao outro cada vez mais um prazer maior!”


A civilização ocidental é uma civilização do trabalho e, como diz Diógenes (4): “O amor é a ocupação dos preguiçosos”. Com o desaparecimento gradual do trabalho forçado, o amor é chamado a reconquistar o terreno perdido. E isso não deixa de trazer perigo para todas as formas de autoridade. Por ser unitário, o erotismo implica a liberdade da multiplicidade. Não existe melhor propaganda para a liberdade do que a serena liberdade de gozar. É por isso que o prazer é na maior parte do tempo confinado à clandestinidade, o amor, em um quarto, a criatividade, debaixo da escada da cultura, o álcool e a droga, à sombra das leis etc.


A moral da sobrevivência condenou a diversidade dos prazeres e sua unidade-na-multiplicidade em proveito da repetição. Se o prazer-angústia se satisfaz com o repetitivo, o verdadeiro prazer por sua vez só ocorre com a diversidade na unidade. O modelo mais simples é o casal axial. Os dois parceiros vivem as suas experiências numa transparência e numa liberdade tão completas quanto possível. Essa cumplicidade irradiante tem o encanto das relações incestuosas. A multiplicidade das experiências vividas em comum fundamenta entre os parceiros um laço de irmão e irmã. Os grandes amores têm sempre alguma coisa de incestuoso: um fato que sugere que o amor entre irmãos e irmãs é privilegiado a princípio, e deveria ser favorecido. Já é tempo desse velho e ridículo tabu ser quebrado, e um processo de “sororização” ser posto em andamento: ter uma esposa-irmã cujas amigas sejam minhas esposas e minhas irmãs.


No erotismo, a única perversão é a negação do prazer, é a falsificação do prazer-angústia. Que importa a fonte desde que a água corra? Como os chineses dizem: imóveis um no outro, o prazer nos arrasta.


Finalmente a busca do prazer é a melhor garantia do lúdico. Ele salvaguarda a participação autêntica, protegendo-a contra o sacrifício, a coação, a mentira. Os diferentes graus de intensidade do prazer definem o domínio da subjetividade sobre o mundo. Assim, o capricho é o jogo do desejo em estado nascente; o desejo, o jogo da paixão nascente. E o jogo da paixão encontra a coerência na poesia da revolução.


Isso quer dizer que a busca do prazer exclui o desprazer? Não exatamente, mas o desprazer ganha um novo significado. O prazer-angústia não é nem um prazer nem um desprazer, mas um modo de se coçar que irrita ainda mais. O que é então o desprazer autêntico? Um revés no jogo do desejo e da paixão: um desprazer positivo que chama com um grau correspondente de paixão um outro prazer a construir.



1. Parte 5 do capítulo XXIII, “A Tríade Unitária: Realização, Comunicação, Participação”, do livro A Arte de Viver Para as Novas Gerações, de Raoul Vaneigem.


2. Julien Offray de La Mettrie (1709-1751), médico e filósofo francês. (N.T)


3. Norman O. Brown foi um importante filósofo e pensador norte-americano muito influente no anos 1960 e 1970, por suas idéias libertárias sobre o prazer que, juntamente com as de Herbert Marcuse (com as quais, de certa forma, rivalizava), viriam a ser fundamentais para a contracultura. Autor de Vida contra a Morte e O Corpo e o Amor.


4. Filósofo cínico que viveu no século IV ª C. em Atenas e Corinto. (N.T)


Fonte: Vaneigem, Raoul. A Arte de Viver Para as Novas Gerações. São Paulo, Conrad Livros, 2002, pp. 266-269.

30 Julho 2007

Além do feminismo, além do gênero

A fim de criar uma revolução que possa por fim a todo tipo de dominação, é necessário acabar com as tendências a que todos nós nos vemos submetidos. Isto requer que sejamos conscientes do papel que esta sociedade nos impõe e busquemos seus pontos fracos, com o objetivo de descobrir seus limites e transgredir.


A sexualidade é uma expressão essencial dos desejos e paixões individuais, da chama que pode inflamar tanto o amor como a revolta. Assim pode ser uma força importante dos desejos de cada um de nós, que pode levantar-nos além da massa, como seres únicos e indomáveis. O gênero por outro lado, é um intermediário construído pela ordem social para inibir a energia sexual, enclaustrá-la e limita-la, direcionando-a a fazer a reprodução desta ordem de dominação e submissão. Desta maneira, o gênero se converte em um impedimento da vontade de decidir livremente como queremos viver e nos relacionar. Não obstante, até agora, ao homem foi concedida maior liberdade de fazer valer sua vontade dentro destes papéis do que a mulher, o que explica de forma bastante razoável porque existem mais anarquistas, revolucionários e gente que atua fora da legalidade que são homens e não mulheres. As mulheres que foram fortes, que tem se rebelado, fizeram isso porque superaram sua feminilidade.


Lamentavelmente o Movimento de Liberação da Mulher (MLM) que ressurgiu nos anos 60, não prosperou no desenvolvimento de uma análise profunda da natureza da dominação em sua totalidade e do papel jogado pelos gêneros em sua reprodução. Um movimento que apareceu diante da necessidade de nos livrar dos papeis de gênero para sermos assim indivíduos completos e auto-suficientes, foi transformado em uma especialização como a maior parte das lutas parciais da época. Garantindo desta maneira a impossibilidade de levar a cabo uma análise global dentro deste contexto.


Esta especialização é o feminismo atual, que começou desenvolvendo-se fora do MLM nos finais dos anos 60. Seu objetivo, não era tanto a liberação da mulher como individualidade dos limites impostos pelos papéis atribuídos a seu gênero, como a liberação da "mulher" como categoria social. Junto às correntes políticas principais, este projeto consistiu em obter direitos, reconhecimento e proteção para as mulheres como uma categoria social, reconhecida conforme a legislação. Em teoria, o feminismo radical se moveu para além da legalidade com o objetivo de liberar as mulheres como uma categoria social, da dominação masculina. Dado que a dominação masculina não é explorada suficientemente como parte da dominação total -inclusive pelas anarcofeministas- a retórica do feminismo radical, frequentemente adquire um estilo similar aos de lutas de liberação nacional. Mais apesar das diferenças no método e na teoria, a prática feminista liberal (burguesa, principal) e o feminismo radical frequentemente são coincidentes. Isto não é uma casualidade.


A especialização do feminismo radical consiste em centrar-se por completo nos sofrimentos da mulher nas mãos de homens. Se a catalogalização fosse alguma vez completada, a especialização não seria durante mais tempo necessária e havia chegado o momento de traduzir-se mais além da lista de ofensas sofridas, até uma vontade real e atual analisar a natureza da opressão da mulher nesta sociedade e levar a cabo ações reais e muito meditadas para acabar com esta opressão. Assim que a manutenção desta especialização requer que as feministas ampliem este catálogo infinito, inclusive até o ponto de dar explicações pelas ações opressivas levadas a cabo por mulheres em postos de poder, como expressões do poder patriarcal, e assim desta maneira liberaria estas mulheres da responsabilidade de suas ações. Qualquer analise séria das completas relações de dominação, como as que existem atualmente, é deixada de lado a favor de uma ideologia na qual o homem domina e a mulher é a vitima da dominação.


Mas a criação de uma identidade com base na própria opressão, sobre a vitimização sofrida, não proporciona a força ou a independência. No lugar disto, cria uma necessidade de proteção e segurança que eclipsa o desejo de liberdade e independência. No reino do teórico e psicológico, uma abstrata e universa "irmandade feminina" pode encontrar essa necessidade, mas a fim de fornecer uma base para esta irmandade, da "mística feminilidade", a qual foi exposta nos anos 60 como uma construção cultural que apoiava a dominação masculina, é revivida em forma de espiritualidade de mulher, culto a deusa e uma variedade de outras ideologias feministas. A vontade de liberar a mulher como categoria social, alcança sua apoteose na recriação dos papeis do gênero feminino em nome de uma alusiva solidariedade de gênero. O feito de que muitas feministas radicais haviam recorrido a policiais, tribunais e outros programas estatais de proteção de mulheres (imitando assim o feminismo burguês.) só serve para sublinhar a falsa natureza da "irmandade" que proclamam. Apesar de ter havido tentativas de mover-se além destes limites dentro do contexto do feminismo, esta especialização foi sua melhor definição durante três décadas. Na forma em que foi praticado falhou ao apresentar um desafio revolucionário tanto contra o gênero como contra a dominação. O projeto anarquista de liberação global nos chama para nos movermos além destes limites até o ponto de atacar o gênero em si mesmo, com o objetivo de converter-nos em seres completos, definíveis não como um conglomerado de identidades sociais, senão como únicos e completos indivíduos.


É um estereótipo e um erro afirmar que os homens e mulheres têm sofrido iguais opressões dentro de seus papéis de gênero. Os papéis do gênero masculino permitem ao homem uma grande liberdade de ação para afirmação de sua própria vontade. Por isso a liberação da mulher de seus papéis de gênero não consiste em ser mais masculina senão em ir bem mais além de sua feminilidade, assim para os homens a questão não é ser mais feminino senão ir bem mais além de sua masculinidade. A questão é descobrir que o centro da unicidade que está em cada um de nós, vai mais além de todos os papéis de gênero e da forma em que cada um atua, vive e pensa no mundo, tanto no domínio sexual como em todos os outros.


Separar o gênero em função da sexualidade, desde a totalidade de nosso ser, fixando características especificas segundo o gênero ao que se pertence, serve para perpetuar a atual ordem social. Como conseqüência disso, a energia sexual, que poderia ser um extraordinário potencial revolucionário, é canalizada para reprodução das relações de dominação e submissão, de dependência e desespero. A miséria sexual que isto tem produzido e sua exploração comercial está por todos os lados. A chamada inadequada dos povos a "abraçar tanto a masculinidade como a feminilidade" cai em falta de análise sobre estes conceitos, já que ambos são invenções sociais que servem aos propósitos do poder.


Assim, mudar a natureza dos papeis do gênero, aumentar seu número ou modificar sua forma é inútil sob uma perspectiva revolucionaria, já que isto só serve para ajustar mecanicamente a forma de condutas que canalizam nossa energia sexual. No lugar disto, necessitamos nos reapropriar de nossa energia sexual para reintegrá-la na totalidade de nossos seres a fim de fazer-nos extensos e poderosos como para explorar cada conduto e inundar o terreno da existência com nosso ser indomado. Isto não é uma tarefa terapêutica, senão uma revolta insolente - uma que emane desde nossas forças e nossa recusa a retroceder. Se nosso desejo é destruir toda dominação, então é necessário que nos movamos além de tudo o que nos reprime, além do feminismo e além do gênero, porque aqui é onde encontramos a capacidade de criar nossa indomável individualidade que nos conduzirá contra toda dominação sem vacilação. Se desejarmos destruir a lógica da submissão, este deve ser nosso mínimo objetivo.


Willful Disobedience Vol. 2, No. 8.

11 Julho 2007

Sobre a pobreza sexual

Uma sociedade baseada na concentração de poder e no intercâmbio econômico empobrece cada área da vida, inclusive as mais pessoais. Existe mais ou menos acordo quando se fala da liberação da mulher, da liberação dos homossexuais e inclusive a liberação sexual dentro do âmbito anarquista. Além disso, é fácil encontrar análises sobre a dominação masculina, sobre o patriarcado e o heterossexismo, mas a realidade do empobrecimento sexual parece que foi amplamente ignorada, a respeito da expressão sexual, limitaram às percepções como monogamia, poligamia, poliamor e outros mecanismos similares das relações amorosas. Segundo creio, esta limitação é em si mesma um reflexo de nosso empobrecimento sexual; limita-nos a falar dos mecanismos das relações de maneira que possamos evitar os questionamentos sobre a qualidade dessas mesmas relações.

Existem vários fatores que influem no empobrecimento sexual que experimentamos nesta sociedade. Se examinarmos suas origens, as instituições do matrimônio, a família e a imposição de algumas estruturas sociais patriarcais são importantes, e o papel que jogou não pode ser ignorado. Mas durante as últimas décadas, pelo menos aqui no chamado Ocidente, a força destas instituições diminuiu consideravelmente. No entanto o empobrecimento sexual não o fez. Talvez tudo ao contrário. Voltou-se mais intenso e o sentimos de uma forma mais desesperada.


O mesmo processo que permitiu a debilidade e a desintegração gradual da família é que agora sustenta o empobrecimento sexual: o processo de coisificação. A coisificação da sexualidade é evidentemente tão antiga como a prostituição (e quase tão velha como a civilização), mas nas últimas cinco décadas, a publicidade e os meios de comunicação coisificaram a concepção de sexualidade. A publicidade nos oferece um atrativo sexual que influencia nas massas, vinculando a paixão espontânea com desodorantes, sabonetes, perfumes e carros. Através dos filmes e da TV nos mostram imagens sobre a facilidade com a qual alguém pode conseguir gente bonita em sua cama. Evidentemente, é necessário que seja belíssimo e atrativo, e para consegui-lo nos servem desodorantes, perfumes, academia, dietas e produtos para o cabelo. Estamos adestrados para desejar imagens de "beleza" de plástico que são inalcançáveis porque em grande parte são fictícias. Está criação de desejos artificiais e inalcançáveis serve perfeitamente às necessidades do Capital, já que garantem uma continua sensação de insatisfação que pode ser utilizada para manter as pessoas comprando, numa tentativa desesperada de aliviar seus anseios.


A coisificação da sexualidade conduziu um tipo de "liberação" dentro do esquema das relações de mercado. Não somente porque é muito freqüente ver relações sexuais entre pessoas solteiras no cinema, mais porque cada vez mais as relações de homossexualidade, bissexualidade e inclusive algumas outras raras estão ganhando certo nível de aceitação entre a população. Evidentemente, de maneira que sejam úteis as necessidades de mercado. De fato, estas práticas são transformadas em identidades nas quais alguns se ajustam de forma mais ou menos estrita. Desta maneira, se converte em muito mais que uma simples prática de um determinado ato sexual. Assim "estilos de vida" completos estão associados a eles, implicando conformismo, lugares específicos para ir, produtos específicos para se comprar. Neste sentido, os gays, as lesbianas, os bissexuais, o couro e as subculturas desenvolvem suas funções como objetivos de mercado à margem da família tradicional e do contexto geral.


De fato, a coisificação da sexualidade permite que todas as formas de práticas sexuais sejam produtos de venda. No mercado sexual, todo o mundo vende a si mesmo ao mais alto posto enquanto tenta comprar aqueles que lhe atraem ao menor preço. Assim, se cria o absurdo jogo de jogar duro para conseguir ou tentar pressionar a outros para manter relações sexuais. E assim se dá a possessividade, que tão frequentemente é desenvolvida nas atuais relações de "amor". Depois de tudo, no regime do mercado, não é possuidor aquele que comprou?


Neste contexto, o ato sexual tende a tomar-se na mesma medida; uma forma quantificável em consonância com esta coisificação. Dentro de uma sociedade capitalista não deveria surpreender que a "liberação" da franqueza sexual signifique predominantemente uma discursão sobre o mecanismo do sexo. O jogo do ato sexual se reduz não somente ao prazer físico, mas mais especificamente ao orgasmo, e o discurso sexual se centra sobre os mecanismos mais efetivos para ganhar este orgasmo. Não quero ser mal interpretado. Um orgasmo eufórico é algo maravilhoso. Mas centrar o encontro sexual em conseguir um orgasmo, não nos permite sentir o jogo de nos perder no outro, aqui e agora. Mas que ser uma imersão de um no outro, o sexo centrado em alcançar o orgasmo se converte em uma tarefa que aspira a um objetivo futuro, a manipulação de certos organismos para ganhar um fim. Tal e como eu o vejo, isto transforma o sexo em uma atividade basicamente masturbatória - duas pessoas usando uma a outra para conseguir seu fim desejado, trocando (desde de o ponto de vista estritamente econômico) prazer sem dar nada de si mesmo. Nestas ações deliberadas, não existe lugar para a espontaneidade, a paixão sem medida, a entrega nas mãos de outro.


Este é o contexto social da sexualidade em nossas vidas atuais. Dentro deste contexto existem muitos outros fatores que reforçam o empobrecimento da sexualidade. O capitalismo necessita de movimentos de liberação parcial de todos os tipos, tanto pra a recuperação da revolta como para introduzir a embrutecida lei do mercado em cada vez mais aspectos de nossa vida. Por isso o capitalismo necessita do feminismo, dos movimentos de liberação racial e nacional, da liberação dos gays e também evidentemente da liberação sexual.


Mas o capitalismo não faz uso de forma imediata de todos os velhos métodos de dominação e exploração, e não faz porque são sistemas lentos e complicados. As lutas de liberação parcial mantêm sua função recuperadora precisamente para continuar exercendo a velha opressão como contrapartida para prevenir, que aqueles envolvidos em lutas de liberação, possam perceber a escassez de sua "liberação" dentro da ordem social atual. De tal maneira se o puritanismo e a opressão sexual tivessem sido realmente erradicados dentro do capitalismo, a escassez dos sexshops mais feministas, conscientes e amigos dos gays seria óbvia.


E assim o puritanismo continua existindo e não só como um vestígio de tempos anteriores, caídos da moda. Isto se manifesta claramente em métodos óbvios, tais como a opressão ainda vigente do matrimônio, (ou pelo menos criar uma identidade como casal) e ter uma família. Mas também se faz manifesto de forma que a maioria das pessoas não percebe, porque nunca consideraram outras possibilidades. A adolescência é a época em que os impulsos sexuais são mais fortes devido às mudanças que se produzem no corpo. Em uma sociedade sã, os adolescentes deveriam ter a oportunidade de explorar seus desejos sem medo ou censura, deveriam fazê-lo de uma forma aberta e aconselhada, se quiserem, pelos adultos.


Enquanto que os desejos intensos dos adolescentes são claramente reconhecidos (quantas vezes filmes de humor ou programas de TV se baseiam na intensidade destes desejos e na impossibilidade de explorar-los de uma forma livre e aberta) nesta sociedade, não se criam métodos para que esses desejos possam explorar-se livremente, esta sociedade os censura, fazendo uma chamada à abstinência, deixando os adolescentes ignorando seus desejos, limitando-os a masturbação ou aceitando frequentemente ter sexo rápido em situações de muita pressão e ambientes nada confortáveis para evitar assim que lhes peguem. É difícil não estranhar que algum tipo de sexualidade sã houve se desenvolvido sob estas condições.


Porque o único tipo de "liberação" sexual de utilidade para o Capital é aquela que permite preservar a pobreza sexual, e utilizará todo tipo de ferramentas para a manutenção da repressão sexual sob o engano de uma liberação fictícia. Desde que as velhas justificações religiosas para a repressão sexual deixaram de ser válidas para amplas porções da população, um medo físico pelo sexo atua agora como catalisador na criação de um novo meio para a repressão. Este medo é promovido principalmente por duas frentes. Em primeiro lugar é o meio do depredador sexual. Ataque sexual a jovens, olhar violador e a violação são fatos muito reais. Mas os meios de comunicação exageram a realidade com explicações sensacionalistas e especulações. O manejo destes assuntos por parte das autoridades e os meios de comunicação não têm como objetivo encarregar-se destes problemas, mas seguir promovendo o medo. Na realidade, os casos de violência sexual contra mulheres e crianças (e me refiro especificamente àqueles atos de violência baseados no fato de que as vítimas sejam crianças ou mulheres) são a maioria das vezes, mais freqüentes que os atos de violência sexual. Mas o sexo tem um forte valor social que concede aos atos de violência sexual uma imagem muito sinistra*. E o medo promovido pelos meios de comunicação em relação aos ditos atos reforça uma atitude social generalizada, de que o sexo é perigoso e deve ser reprimido ou pelo menos publicamente controlado.


Em segundo lugar, esta o medo às doenças sexualmente transmissíveis e em particular a AIDS. De fato, a princípios dos anos 80 o medo das doenças sexualmente transmissíveis deixou de ser em grande medida um método útil para manter as pessoas afastadas do sexo. A maioria destas doenças podia ser tratada com relativa facilidade, e as pessoas mais inteligentes se deram conta da inutilidade de utilizar preservativos na prevenção da propagação de doenças como gonorréia, sífilis e muitas outras doenças. Nesse momento se descobriu a AIDS. Havia muito que dizer sobre a AIDS, muitas perguntas teriam que ser respondidas, uma grande quantidade de negócios suspeitos (no sentido literal do termo) referentes a este fenômeno, mas a respeito do tema que estamos tratando, de novo o medo ao contágio de doenças sexualmente transmissíveis se dedica para promover a abstinência sexual, ou pelo menos que a sexualidade seja menos espontânea, menos desordenada, e gera assim encontros sexuais mais estéreis.


Em meio a tal ambiente de deformação sexual, outros fatos desenvolvem o que parece ser inevitável. Uma tendência a agarrar-nos desesperadamente àqueles com quem temos conectado, ainda que seja uma conexão empobrecida. O medo de estar sozinha, sem amor, nos conduz a nos unir com amantes quando há muito já deixamos de amá-los. Inclusive quando o sexo continua existindo na relação, provavelmente seja mecânico e ritual, e não um momento absoluto de entrega ao outro.


E claro, são aqueles que simplesmente sentem que não podem controlar completamente esta tristeza, este meio desamparado de relações artificiais e conduzido pelo medo, e por isso nunca o tentarão. Não é uma falta de desejo que impõe sua "abstinência", senão o desânimo para se vender assim mesma e uma desesperança ante a possibilidade de encontros sexuais reais. Frequentemente estes indivíduos que, no passado, se situaram na linha de busca de encontros eróticos apaixonados, intensos e foram recusados como artigos de inferior quantia. Foram apostados, os outros compraram e venderam. E perderam a esperança de manter a aposta.


Em qualquer caso, vivemos em uma sociedade que empobrece todo tipo de contato, os sexuais também. A liberação sexual - no sentido real, que é nossa liberação para explorar a plenitude, do abandono erótico carnal no outro - nunca o poderá realizar-se por completo dentro desta sociedade, porque esta sociedade necessita do empobrecimento, dos encontros sexuais coisificados, tanto como necessita que todas as interações sejam coisificadas, medidas, calculadas. Assim que os encontros sexuais livres, como cada encontro livre, só pode existir contra esta sociedade. Mas isto não é um motivo de desesperação (a desesperação depois de tudo, não é mais que o outro lado da esperança), mas sim deve conduzir-nos a uma exploração subversiva. O reino do amor é muito amplo, e existem infinitos caminhos a explorar. A tendência entre os anarquistas (pelo menos nos EUA) de reduzir as questões de liberação sexual ao mecanismo de ditas relações (monogamia, não-monogamia, poliamor, "promiscuidade", etc) deve ir mais além. Na expressão sexual livre têm cabimento tudo isto e muito mais. De fato, a riqueza sexual não tem nada haver com ambos os mecanismos (tanto as relações como os orgasmos) ou com a quantidade (o capitalismo tem provado há muito tempo que seus choros cada vez mais efetivos ainda cheiram a lixo). E sim consiste no reconhecimento de que a satisfação sexual não é exclusivamente uma questão de prazer como tal, senão concretamente de prazer que brota do encontro real e o reconhecimento, a união dos desejos e dos corpos, e a harmonia, o prazer e o êxtase que se obtém dele.


Assim, fica claro que necessitamos perseguir uns encontros sexuais como os que procuramos pra o resto de nossas relações, em total oposição a esta sociedade, não pode ser um dever revolucionário, senão porque é a única maneira possível de ter relações sexuais plenas, ricas e desinibidas na qual o amor deixe de ser uma desesperada dependência mútua e em seu lugar se transforma na exploração extensiva do desconhecido.


*O importantíssimo assunto da filosofia da inocência da infância - uma filosofia que só serve para manter as crianças no lugar que lhe corresponde nesta sociedade - também esta relacionada com isto. Mas requer um artigo em si mesmo, simplesmente para começar a abordar o tema.


Willful Disobedience

Volume 4, number 3-4, Fall-Winter 2000

22 Junho 2007

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31 Maio 2007

Sobre o anarquismo e outros impedimentos para a anarquia

Atualmente não há a necessidade de produzir novas definições do que é o anarquismo - seria difícil superar aquelas concebidas há muito tempo por vários eminentes estrangeiros já falecidos. Nem necessitamos demorarmos nos familiares anarco-comunismo e anarco-individualismo, nem nos demais, os livros cobrem tudo isso. Mas o problema é que não estamos hoje mais perto da anarquia do que estavam em seu tempo Godwin, Proudhon, Kropotkin e Goldman. Há muitas razões, mas aquelas que merecem maior reflexão são as que os anarquistas mesmo geram, já que estes obstáculos - se há algum – podem ser removidos. É possível, mas não provável.


O que considero, segundo meu julgamento, depois de anos de votação e em ocasiões de uma espantosa atividade no meio anarquista, é que os anarquistas são a principal razão - suspeito, uma razão suficiente - pela qual a anarquia permanece como um epíteto sem uma oportunidade de ser realizada. Muitos anarquistas são, francamente, incapazes de viver de uma maneira autônoma e cooperativa. Uma boa parte deles não são muito brilhantes. Eles tendem a ler seus próprios clássicos e a literatura produzida pelo próprio grupo, excluindo um conhecimento mais amplo do mundo em que vive. Essencialmente tímidos, se associam com outros iguais a eles com o conhecimento tácito de que nada medirá as opiniões dos demais nem atuará contra praticamente nenhum estandarte de inteligência crítica; que nenhum de seu, ou seus, ganhos individuais estará muito por cima do nível prevalecente; e, sobretudo, que nada desafia as regras da ideologia anarquista.


O anarquismo não é em grande medida um desafio à ordem existente, anteriormente é uma forma sobre-especializada de acomodar-se nela. É um modo de vida, ou um anexo de uma, com sua mistura particular de recompensas e sacrifícios. A pobreza é obrigatória, e pela mesma razão se exclui a pergunta sobre se este anarquista pode ser alguém na vida ou um fracassado, apesar da ideologia. A história do anarquismo é uma história incomparável de derrota e martírio, os anarquistas ainda veneram seus antepassados feitos de vítimas, com uma devoção mórbida que levanta a suspeita de que os anarquistas, como todos os demais, pensam que o único anarquista bom é um morto. A revolução – a revolução vencida – é gloriosa, mas pertence aos livros e panfletos. Neste século – a Espanha em 1936 e a França em 1968 são casos sumariamente claros – o arrebatamento revolucionário surpreendeu ao oficial, os anarquistas organizados chegaram tarde e inicialmente não apoiaram as propostas, ou ainda pior. A razão disso não se encontra longe; não é que esses ideólogos foram hipócritas (alguns o eram), mas eles trabalhavam em uma rotina diária de militância anarquista, alguns deles esperavam inconscientemente suportar indefinidamente, já que a revolução não era imaginável realmente no aqui e agora, por isso eles reagiram com medo e em atitude defensiva quando os eventos se distanciaram de sua retórica.


Em outras palavras, se lhes permite escolher entre anarquismo e anarquia a maioria dos anarquistas irão optar pela ideologia do anarquismo e sua subcultura ao ter que dar um perigoso salto ao desconhecido, dentro de um mundo de liberdade estatal. Mas desde que os anarquistas são as únicas críticas confessas do estado como tal, estes populares temerosos da liberdade deveriam assumir, inevitavelmente e de maneira proeminente, ou ao menos publicitária, seus lugares em qualquer insurgência que fosse genuinamente antiestatal. Eles são seguidores, encontraram os líderes de uma revolução que ameaçará seus status estabelecidos não menos do que podem fazer os políticos e os proprietários. Os anarquistas podem sabotar a revolução, conscientemente ou de outra maneira, que sem eles poderiam ter abolido o estado, repetindo sem pausa aos antigos debates entre Marx e Bakunin.


De fato, os anarquistas que assumiram esse nome não tem feito nada para mudar o estado, não com escritos cheios de verborréia ilegível, e sim com o exemplo contagioso de outra maneira de se relacionar com as demais pessoas. Quando os anarquistas conduzem as questões do anarquismo são a melhor refutação das pretensões anarquistas. Na realidade, as duas “federações” de trabalhadores mais organizadas da atualidade na América do Norte têm entrado em colapso por tédio e amargura, e uma coisa boa também, porque a estrutura social informal do anarquismo, que o atravessa, é ainda hierárquica. Os anarquistas se submetem placidamente ao que Bakunin chamou de “governo invisível”, que no caso consiste nos editores (de fato se não no nome) de um maço das maiores e mais duradouras publicações anarquistas.


Estas publicações, apesar das diferenças ideológicas aparentemente profundas, de antemão seus leitores têm posições similares de “papai sabe o que é bom” assim como um acordo de cavaleiros para não permitir ataques entre eles que exporiam as inconsistências e por outra parte minaria o interesse da classe comum na hegemonia da gente comum anarquista. Por incrível que pareça, você pode criticar facilmente ao Fifth Estate e o Kick It Over em suas próprias páginas nas quais criticam, digamos, a Processed Wolrd[*]. Cada organização tem mais em comum com qualquer outra do que têm com qualquer desorganizado. A crítica anarquista do estado, se só os anarquistas as entendem, é sem dúvida um caso especial de crítica contra a organização. E inclusive a certo nível as organizações anarquistas se dão conta disso.


Os anti-anarquistas podem concluir que se não há hierarquia e coerção, a deixem sair em público, mostrando claramente como é. Ao contrário dessas autoridades (os direitistas “libertários”, os minarquistas, por exemplo) eu persisto obstinadamente em minha oposição ao estado. Mas não porque, como os anarquistas reflexivamente declaram, o estado não seja “necessário”; as pessoas comuns desacreditam essa verdade anarquista e a consideram absurda, como devem fazê-lo. Obviamente, em uma sociedade industrializada como a nossa, o Estado é necessário. O ponto é que o Estado criou as condições nas quais é de fato necessário, desapossando os indivíduos de seu poder, de se associarem voluntariamente no dia a dia. De maneira mais fundamental, as bases do Estado (trabalho, moralismo, tecnologia industrial, organizações hierárquicas) não são necessárias senão como antíteses para a satisfação de nosso desejo e necessidades reais. Desafortunadamente, a maioria das tendências do anarquismo apóia essas premissas, mas opondo-se a sua conclusão lógica: o Estado.


Se não houvesse anarquistas o Estado teria que inventá-los. Sabemos que em muitas ocasiões ocorreu exatamente isso. Necessitamos de anarquistas sem as travas do anarquismo. Então, e só então, podemos começar a obter um fomento sério da anarquia.


Bob Black


NOTAS

[*] Nome de diferentes revistas anarquistas dos Estados Unidos, as primeiras de tendência primitivista, no entanto a segunda tem um caráter mais anarcosindicalista. (Nota do “tradutor”)

19 Abril 2007

Teses sobre o anarquismo após o pós-modernismo

1. Anarquismo, n.1. A doutrina que diz que a sociedade estatal é possível e desejável. Obsoleto. 2. Regra feita pelos anarquistas.


2. Anarquismo, compreendido corretamente, não tem o que fazer com padrões e valores em um sentido moral. Moralidade implica na idéia de que o Estado foi feito para a sociedade: uma limitação alienante na liberdade, e uma inversão de fins e meios. Para anarquistas, os padrões e os valores são melhores compreendidos - isto é, são os mais úteis - como aproximações, atalhos, conveniências. Podem sumariar alguma sabedoria prática ganhada pela experiência social. Então novamente, podem ser os servidores das ordens da autoridade, ou formulação útil que, em outras circunstâncias, já não servem a finalidade do anarquista, ou alguma finalidade boa.


3. Falar de padrões e de valores do anarquista, então, não é necessariamente sem sentido - mas envolve riscos, riscos freqüentemente deixados de lado. Em uma sociedade saturada pela cristandade e suas tradições seculares, o risco é que o tradicional uso absolutista destas palavras moralistas impregnará a maneira de como os anarquistas as usam. Você tem padrões e valores ou eles têm você? É geralmente melhor (mas, naturalmente, não necessariamente ou absolutamente melhor) para os anarquistas que evitem o vocabulário traiçoeiro do moralismo e apenas digam diretamente o que querem, porque o querem, e porque querem que todos queiram. Ou seja, pôr as cartas sobre a mesa.


4. Como padrões e valores, os "ismos" anarquistas, velhos e novos, são considerados melhor como recursos, não requisitos. Eles existem para nós, não nós para eles. Não importa se eu, por exemplo, possa ter encontrado mais coisas no situacionismo do que no sindicalismo, visto que um outro anarquista encontrou mais coisas no feminismo ou no marxismo ou no Islã. Onde nós já visitamos e mesmo de onde viemos é menos importante do que onde nós estamos e onde, se em qualquer lugar, nós estamos indo - ou se nós estivermos indo ao mesmo lugar.


5. O “tipo 1” se refere ao anarco-esquerdismo. O “tipo 2” se refere ao anarco-capitalismo. O “tipo 3” se refere ao meta-típica. O anarquista “tipo 3” rejeita categoricamente a categorização. Sua “existência precede sua essência” (Sartre). Para ele, nada é necessariamente necessário, e tudo é possivelmente possível. Pensa que o imediatismo é demasiado longo. “Ela voa nas asas estranhas” (Shocking Blue). A esposa de Winston Churchill queixou-se uma vez sobre sua bebedeira. Churchill respondeu que tinha dado mais foras no álcool do que o álcool tinha dado nele. O anarquista “tipo 3” dá mais foras no anarquismo do que o anarquismo nele. E tenta abandonar mais a vida do que a vida abandonar ele. Uma amável, pensativa e auto-afirmativa orientação predatória tem mais aplicações práticas que a ingenuidade e a imaginação do “tipo 3” lhe sugerem.


6. Primeiramente, a rejeição dos princípios da aplicação universal tem aplicações universais. Na prática, todo indivíduo tem suas limitações, e a força das circunstâncias varia. Não há nenhuma fórmula para o sucesso, nem mesmo o reconhecimento de que não há nenhuma fórmula para o sucesso. Mas a razão e a experiência identificam determinadas áreas de previsível futilidade. É fácil e aconselhável, por exemplo, os anarquistas se absterem da política eleitoral. É preferível, mas freqüentemente não é possível, se abster do trabalho, embora seja geralmente possível se engajar em alguma resistência anti-trabalho sem correr riscos. Crime, mercado negro, e sonegação de impostos são alternativas muitas vezes mais reais, ou então se junte à participação no sistema do estado-sancionado. Todos têm que avaliar suas próprias circunstâncias com a cabeça aberta. Faça o melhor que puder e tente não ser pego. Os anarquistas já têm mártires demais.


7. O anarquismo está em transição, e muitos anarquistas estão experimentando a ansiedade. É muito fácil advogar a mudança do mundo. A conversa é fiada. Não é fácil você mudar a pequena parcela que tem contato. As diferenças entre as tendências anarquistas tradicionais são irrelevantes porque as tendências anarquistas tradicionais são elas mesmas irrelevantes. (Para as finalidades atuais vamos negligenciar o “tipo 2”, anarquistas do livre-mercado que parecem não ter nenhuma presença visível, exceto nos Estados Unidos, e mesmo lá têm pouco diálogo, e menos influência que o resto de nós.) A rede mundial, irreversível, e o longo-declínio da esquerda precipitou a crise atual entre os anarquistas.


8. Os anarquistas estão tendo uma crise da identidade. São ainda, ou somente, a asa esquerda da asa esquerda? Ou são algo mais, ou mesmo alguma coisa? Os anarquistas sempre fizeram muito mais para o repouso da esquerda do que o repouso da esquerda fez para eles. Todo a dívida do anarquista à esquerda foi há muito paga completamente. Agora, finalmente, os anarquistas estão livres para serem eles mesmos. Mas a liberdade é uma briga, prospecto incerto, visto que as velhas manias, os clichês e os rituais esquerdistas, são tão confortáveis quanto um par de sapatos velhos (sapatos de madeira inclusive). O melhor é que, desde que a esquerda já não representa qualquer tipo da ameaça, os anarco-esquerdistas não estão em perigo quanto a repressão do estado quando recordam e reativam seus antepassados, glórias míticas. Isso é aproximadamente tão revolucionário quanto um fumante acabado, e o estado tolera ambos pela mesma razão.


9. Quão anárquico é o mundo, então? Por um lado, muito anárquico; por outro, de modo algum. É muito anárquico no sentido que, como Kropotkin argumentou, a sociedade humana, a própria vida humana, sempre depende muito mais da ação cooperativa voluntária do que de qualquer coisa às ordens do estado. Sob um severo regime estadista - a antiga União Soviética ou a cidade de Nova Iorque nos dias atuais - reger a si próprio depende de violações difusas de suas leis para permanecer no poder e manter a vida. Por outro lado, o mundo não é em todo anarquista, porque não existe população humana, qualquer que seja o lugar, que não é sujeita a algum grau de controle pelo estado.

A guerra é demasiado importante para ser perdida pelos generais, e a anarquia é demasiado importante para ser perdida pelos anarquistas. Cada tática é válida, por qualquer um que tenha inclinação a fazê-la, embora erros provados - tais como votar, proibir livros (especialmente os meus), violência gratuita, e aliar-se com a esquerda autoritária - são melhor evitados. Se os anarquistas não aprenderam como revolucionar o mundo, esperançosamente aprenderam algumas maneiras de como não fazê-lo. Isto não é bastante, mas é alguma coisa.


10. Falar de prioridades é uma melhoria no discurso dos padrões e dos valores, como a palavra incendiada com os excedentes moralistas. Mas, outra vez, você tem prioridades, ou as prioridades têm você?


11. O auto-sacrifício é contra-revolucionário. Qualquer um capaz de se sacrificar por uma causa é capaz de sacrificar qualquer outra pessoa por esta mesma causa. Conseqüentemente, a solidariedade onde exista auto-sacrifício é impossível. Você não pode confiar em um altruísta. Você nunca sabe quando ele pode cometer algum ato desastroso de benevolência.


12. “A luta contra a opressão” - que frase fina! Uma lona de circo grande o bastante para cobrir cada causa esquerdista, palhaçada de qualquer forma, e o menos relevante é a revolução da vida cotidiana, o melhor. Mumia livre! Independência para Timor Leste! Medicamentos para Cuba! Não às minas terrestres! Não aos livros sujos! Viva Chiapas! Salve as baleias! Nelson Mandela livre! – sem demora, já fizeram, agora são uma cabeça do estado, e irá a vida de todo anarquista ser sempre a mesma? Todos são bem-vindos sob o grandioso, com uma condição: que ele refreie toda e qualquer crítica de todos os outros. Você assina minha petição e eu assinarei o seu…


Mantendo a imagem pública de uma luta comum contra a opressão, os esquerdistas escondem, não somente sua fragmentação real, incoerência e fraqueza, mas – paradoxalmente - o que realmente compartilha: aquiescência nos elementos essenciais do estado/sociedade de classes. Aqueles que são satisfeitos com a ilusão de comunidade são relutantes em arriscar perder suas satisfações modestas, e talvez mais, indo para as coisas reais. Todas as democracias industrializadas avançadas toleram uma oposição leal esquerdista, que é cumprida desde que os tolere.



por Bob Black